Coluna – Vitória de todos


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A japonesa Naomi Osaka e o austríaco Dominic Thiem não foram os únicos a levantar os troféus de campeões do US Open no fim de semana. Também houve vencedores das chaves do tênis em cadeira de rodas do Grand Slam norte-americano. No sábado (12), a holandesa Diede de Groot, pela terceira vez seguida, conquistou o título de simples feminino, na categoria open (tenistas com deficiências nos membros inferiores). Ainda na open, o inglês Alfie Hewett e o escocês Gordon Reid levaram a melhor nas duplas masculinas.  Já na categoria quad (atletas com deficiência em três ou mais regiões do corpo), a taça de duplas ficou com o australiano Dylan Alcott e o inglês Andy Lapthorne.

No domingo (13), a japonesa Yui Kamiji e a inglesa Jordanne Whiley foram campeãs nas duplas femininas da classe open. Na final de simples da quad, o holandês Sam Schroder, que entrou no torneio como convidado, surpreendeu Alcott, número um do mundo, para conquistar o primeiro Grand Slam da carreira. Por fim, na decisão de simples masculina da open, o japonês Shingo Kunieda conquistou o sétimo título do US Open, ao derrotar Hewett após quase três horas de partida. .

Independente dos títulos, os 20 atletas em cadeira de rodas que competiram nas quadras do Centro Nacional de Tênis Billie Jean King, em Nova Iorque (Estados Unidos), são vitoriosos. Foram as manifestações deles – que ganharam coro de jogadores do circuito da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) – que possibilitaram a participação no primeiro Grand Slam em meio à pandemia do novo coronavírus (covid-19). Prova da relevância do movimento paralímpico e do peso, cada vez maior, que os competidores, verdadeiros protagonistas do espetáculo, têm no esporte.

Para entender o cenário, é preciso voltar a agosto. Responsável do US Open, a Federação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, sigla em inglês) inicialmente não incluiu as disputas de cadeirantes. A justificativa era reduzir a quantidade de pessoas circulando no local do evento, que não receberia público, por medida de segurança em meio à pandemia. A decisão teve reação imediata dos atletas, que não foram consultados pela organização. “Achei que tinha feito o suficiente para me classificar, tendo ganhado duas vezes [o torneio] e sendo o número um do mundo. Mas, infelizmente, não consegui fazer a única coisa que importa: conseguir andar. Discriminação nojenta”, ironizou Alcott, pelo Twitter, na ocasião.

Outros jogadores importantes do circuito se uniram ao desabafo do australiano, como Laphtorne e Reid. A manifestação ganhou ainda mais força quando nomes como o sérvio Novak Djokovic e o escocês Andy Murray se juntaram ao movimento, tal qual o Comitê Paralímpico Internacional (IPC, sigla em inglês). Tudo isso em um único dia. Foi o suficiente para a USTA mudar os planos. A entidade reconheceu que errou ao não se comunicar com os atletas cadeirantes, da mesma forma que procedeu com os atletas da ATP e da Associação de Tênis Feminino (WTA, sigla em inglês), e iniciou as tratativas que culminaram, enfim, na realização do evento.

Palavra de brasileiro

“A reação foi muito boa com relação à essa conquista, que foi ter a chave de cadeirantes de volta no US Open. [A proporção] me surpreendeu, sim, porque até grandes nomes do tênis convencional se manifestaram. Para nós, atletas, foi ótimo, independente de jogar ou não”, diz o mineiro Daniel Rodrigues, principal tenista em cadeira de rodas do Brasil na classe open masculina.

Daniel não pôde disputar o US Open porque o Grand Slam é restrito aos oito atletas mais bem colocados dos rankings mundiais masculino e feminino da categoria open pela Federação Internacional de Tênis (ITF, sigla em inglês), e aos quatro melhores da quad. Ele é o 11º do mundo na open masculina. “Claro que a chave poderia ser maior, para mais jogadores terem a chance de disputar”, avalia o tenista de 33 anos, que amputou a perna direita, devido à má-formação congênita.

DAniel Rodrigues, tenista de cadeira de rodas, poder representar o Brasil na Paralimpíada de Tóquio, em 2021 DAniel Rodrigues, tenista de cadeira de rodas, poder representar o Brasil na Paralimpíada de Tóquio, em 2021

O tenista Daniel Rodrigues tem chances de representar o Brasil na Paralimpíada de Tóquio, no ano que vem – ALE CABRAL

Para efeito de comparação, a chave de simples da classe open masculina na Paralimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, teve 52 atletas. No ano que vem, nos Jogos de Tóquio (Japão), serão 56. Como os 40 primeiros do ranking se classificam diretamente para o evento, Daniel está praticamente garantido na briga por medalhas em 2021.

Os resultados no US Open não surpreenderam o brasileiro, que já esteve, algumas vezes, frente a frente com os finalistas de sua categoria. “Joguei com o Hewett uma vez e umas três contra o Kunieda. É difícil. Nunca ganhei um set deles, mas, acredito que a diferença deles para mim é que eles treinam mais e fazem os trabalhos corretos”, conta Daniel, que teve um duelo com o heptacampeão do Grand Slam norte-americano pela segunda rodada da Paralimpíada do Rio. O japonês, também bicampeão paralímpico, venceu por 2 sets a 0 (6/1 e 6/2).

Até hoje, apenas o catarinense Ymanitu Silva defendeu o Brasil em um Grand Slam na disputa em cadeira de rodas. Atleta da classe quad, ele recebeu um wild card (convite) para disputar o torneio de Roland Garros, na França, no ano passado. Foi também a estreia da categoria na competição. Na chave de simples, Ymanitu enfrentou Dylan Alcott, perdendo por 2 sets a 0 (6/1 e 6/2). No jogo que valeu o terceiro lugar, caiu para o japonês Koji Sugeno, de virada, por 2 a 1 (3/6, 6/4 e 6/2). Já nas duplas, Ymanitu e Sugeno foram superados, na final, pela parceria entre Alcott e pelo norte-americano David Wagner por 2 a 0 (duplo 6/3).

Edição: Cláudia Soares Rodrigues

Felipe Viana

Felipe Viana