Osama bin Laden antes de se tornar terrorista era anticomunista


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Quem acompanhou os atentados de 11 de setembro de 2001, pessoalmente ou pela TV, provavelmente se recorda do caos e do medo atribuídos a Osama bin Laden. Líder e fundador da organização Al-Qaeda, considerada a responsável por diversos ataques terroristas, ele foi acusado pelo governo americano de ter orquestrado o sequestro e uso de aviões comerciais como armas contra o World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, DC. 

O terrorista Osama bin Laden
Reprodução/TV Al-Jazeera

O terrorista Osama bin Laden


No entanto, bem antes dessa fatídica data e de ter se tornado um dos dez foragidos mais procurados pelo FBI, bin Laden, que foi declarado morto em 2011 após uma operação militar no Paquistão, era considerado um importante colaborador dos EUA contra os comunistas. O jornal americano “The Independent” chegou até a estampar uma reportagem com a foto de Bin Laden e a chamada: “Guerreiro antissoviético coloca seu exército no caminho da paz”.

Jornal que Osama bin Laden saiu
Reprodução/The Independent

Osama bin Laden saiu em jornal como guerreiro da paz


Guerrilheiros patriotas  

Osama bin Laden nunca trabalhou como agente secreto do governo dos EUA, pelo menos até o momento não há provas disso. Não é o mesmo que dizer, porém, que ele não possa ter contribuído a favor dos americanos e tirado proveito do apoio deles. É que na década de 1980, a CIA (Agência Central de Inteligência) dos EUA financiou um grupo de guerrilheiros islâmicos com o qual bin Laden estava envolvido e tinha vários amigos.

Chamados de “mujahideen”, esses homens eram comandados por líderes tribais e atuavam no Afeganistão como seus defensores. Estavam sempre dispostos a combater os “invasores infiéis” e se sacrificar pela pátria. No século 19, se opuseram aos britânicos e a partir do final da década de 1970 contra os soviéticos russos, que se instalaram na sua região para somar esforços e ajudar as tropas do governo marxista da República Democrática do Afeganistão.  

Como a “ameaça” sacudiu todo o mundo muçulmano, combatentes de diversos países árabes se juntaram a esses guerrilheiros afegãos para o enfrentamento dos inimigos comunistas. Bin Laden foi um deles e como era herdeiro de um magnata influente da Arábia Saudita conseguiu fundar com seu próprio dinheiro uma milícia e recrutar muitos “soldados”. Liderou cerca de 4 mil deles no Afeganistão e nos anos seguintes transformou sua organização na rede Al-Qaeda.

Interesses americanos

Como os EUA estavam em tensão com a União Soviética, a chamada “Guerra Fria”, decidiram também se envolver na “briga” do Afeganistão. Ao lado do Reino Unido, Paquistão, Arábia Saudita e mesmo dos seus atuais rivais China e Irã passou a apoiar os mujahideen em sua jihad (Guerra Santa). Alguns historiadores defendem que o interesse americano era o de expulsar os comunistas, outros de que os EUA queriam enfraquecê-los economicamente com uma guerra.

Fato é que os americanos patrocinaram a guerrilha e indiretamente seus aliados com muito dinheiro. Estima-se que em ao longo da década de 1980 foram aplicados bilhões de dólares em armas e treinamentos para mais de 100 mil combatentes, dos quais aproximadamente 35 mil mulçumanos de 43 países islâmicos. A precursora da Al-Qaeda estaria entre as beneficiadas e em 2004, a BBC britânica noticiou até que “bin Laden teve treinamento de segurança da CIA”.

O  presidente Ronald Reagan com líder islâmico
Reprodução/Biblioteca e Museu Presidencial Ronald Reagan

O presidente Ronald Reagan com líder islâmico


O governo dos EUA, claro, sempre rebateu. Porém, pairam dúvidas no ar, pois existe até foto e vídeo do presidente Donald Reagan com líderes mujahideen na Casa Branca em 1983. Foi sob sua gestão que foram lançados a Divisão de Atividades Especiais da CIA para o Afeganistão e Paquistão e o programa até então secreto “Operação Ciclone”. O plano seguia a “Doutrina Reagan”, que orientava financiar movimentos armados para “caçar” comunistas pelo mundo.

Guerrilheiros islâmicos na Casa Branca nos anos 1980
Reprodução/Biblioteca e Museu Presidencial Ronald Reagan

Guerrilheiros islâmicos na Casa Branca nos anos 1980


Terror se multiplicou

A Guerra do Afeganistão durou dez anos e chegou ao fim em 1989, com a derrota dos soviéticos, que se retiraram do país. O conflito rendeu milhões de mortos, outros milhões de refugiados e feridos e contribuiu para que Oriente Médio e vizinhanças se transformassem em algumas das regiões mais desestabilizadas e inseguras do planeta. Há quem considere ainda que os custos econômicos e militares dos russos com a guerra aceleraram o fim da União Soviética em 1991.

Porém, não se pode falar em uma vitória dos EUA. A operação que bancaram entrou para a História como uma das mais caras e demoradas da CIA. Além disso, não deram fim aos comunistas como queriam e somados a outras potências e eventos, como a Revolução Iraniana, ainda ajudaram a fortalecer os fundamentalistas árabes. O que se seguiu foi a ascensão do regime Talibã, da Al-Qaeda e de bin Laden como inimigos das democracias.

A década de 1990 então estreou e em meados dela a “moda” recorrente de se usar carros-bomba e outras táticas tecnológicas e sangrentas para eliminar os “infiéis” pelo mundo. Atravessamos o milênio, o 11 de setembro também ficou no passado e mesmo após a morte de bin Laden, cadê a paz? Os grupos jihadistas se multiplicaram e hoje a ameaça terrorista, escancarada no Oriente e infiltrada no Ocidente, continua presente, elevada e à espreita.

Fontes: Sites The Independent, Washington Post, The Guardian, BBC News, The New York Times e Livros “Devil’s Game: How the United States Helped Unleash Fundamentalist Islam”, de Robert Dreyfuss; “Understanding terror networks”, de Marc Sageman; “Russia’s War in Afghanistan”, de David C. Isby; “Moral Controversies in American Politics”, de Raymond Tatalovich.
Fonte: IG GENTE

Felipe Viana

Felipe Viana