Opinião: Quem merece o Prêmio Nobel da Paz em época de pandemia?

Embora a Alemanha faça parte da União Europeia, quem levou médicos até a Itália foram Cuba e China

Por Vijay Prashad
Cerimônia do Prêmio Nobel da Paz em Estocolmo, Suécia – Divulgação

Algumas semanas atrás, eu estava conversando com Noam Chomsky sobre a conjuntura mundial. Em certo momento, Noam sorriu e disse que não sabia de nenhum médico alemão na Itália. Embora ambos os países façam parte da União Europeia, ao invés disso, são médicos chineses e cubanos que foram para a Itália ajudar o país combater a pandemia.

Profissionais de saúde cubanos

Não é surpresa que existe uma petição circulando em apoio à nomeação de médicos cubanos ao Prêmio Nobel da Paz. O Ministério da Saúde de Cuba rapidamente mobilizou suas equipes médicas – notavelmente a Brigada Henry Reeve – para levar suas habilidades consideráveis a diversos países, desde Andorra até a Venezuela.

A Brigada recebeu o Prêmio Memorial Dr. Lee Jong-Wook de saúde pública da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017 por seu trabalho contra a epidemia de ebola no oeste africano.

Essa honra foi recebida pelo Dr. Felix Baez, que havia trabalhado no Paquistão, em 2005, após o terremoto, depois indo para Serra Leoa, em 2014, combater o ebola. Baez contraiu a doença, foi para a Suiça e, depois, Cuba para se recuperar, eventualmente retornando à Serra Leoa para completar sua missão.

As raízes do internacionalismo médico cubano tem origem na Revolução Cubana de 1959. Embora muitos médicos tenham deixado o país após a revolução, o povo cubano respondeu valentemente ao terremoto de Valdívia, no Chile, em maio de 1960. Uma brigada médica emergencial cubana foi ao país e construiu seis hospitais de campanha.

Isso foi parte de um processo que incluiria assistência médica cubana nas guerras de libertação da Argélia, de Angola, da Nicarágua e do Vietnã, assim como o treinamento de estudantes por todo o mundo.

Um aspecto chave do internacionalismo médico cubano, é treinar profissionais da saúde em diversos países, além de enviar seus próprios médicos e enfermeiras.

Desde 2005, a Escola Latino Americana de Medicina formou mais de 29 mil médicos de mais de cem países. Muitos desses agora se encontram nas linhas de frente da batalha contra a covid-19. Por exemplo, o Dr. Patrick Delly – diretor do Laboratório Nacional de Epidemiologia do Haiti – está liderando os esforços para quebrar a corrente de infecção em sua nação.

Profissionais da saúde chineses

A República Popular da China enviou uma equipe médica além de suas fronteiras pela primeira vez em 1963, quando profissionais da saúde chineses chegaram na Argélia para ajudar o jovem país. Desde então, a China construiu hospitais e centros médicos por toda Argélia, e lá já tratou quase dois milhões de pacientes ao longo dos anos.

Alguns anos atrás, num trem entre Fez e Rabat no Marrocos, eu encontrei uma equipe de doutores chineses trabalhando na nação norte-africana. Esses médicos faziam parte de uma missão trabalhando nos hospitais públicos marroquinos.

Eles me disseram que os governos dos dois países estavam no processo de abertura de uma clínica de medicina tradicional em Casablanca.

Durante a atual pandemia, a China enviou diversos aviões com equipamentos ao Marrocos, complementando as equipes médicas lá já presentes na luta contra a pandemia, onde continuam trabalhando contra a covid-19.

Tendo aprendido muito com sua própria experiência contra o vírus e a doença, a China agora está enviando equipes médicas para países de todo o mundo, do Irã ao Burquina Faso e à Venezuela.

Por exemplo no Sudão, a 35ª Missão Médica liderou um fórum no Hospital de Omdurman, onde o médico encarregado, Dr. Zhou Lin, alertou os profissionais do local a se protegerem e ensinarem outros como prevenir a disseminação do vírus. Conselhos práticos vieram em conjunto com uma doação de 400 mil máscaras e outros equipamentos.

A prática chinesa de internacionalismo médico é coordenada pela Agência de Desenvolvimento e Cooperação Internacional, mas a gestão é feita a nível local em cada província.

O slogan é “uma província, um país”, onde cada uma faz parceria com um país diferente, ou seja, a província de Zhejiang faz uma parceria com a Itália enquanto a província de Jiangsu faz uma com a Venezuela.

Uma área crucial de solidariedade é o crescente apoio chinês ao povo palestino. Uma equipe de peritos médicos da Comissão Nacional de Saúde da China chegou na Palestina no dia 11 de junho.

Hua Chunying, do Ministério de Relações Exteriores chinês, disse que a equipe permanecerá na Palestina para providenciar “perícia em controle epidemiológico, diagnose clínica, tratamento e testagem.” Eles chegam logo após uma doação de 1 milhão de dólares de Pequim à UNRWA, agência da ONU que trabalha para providenciar necessidades básicas ao povo palestino desassistido.

Colaboração chinesa e cubana

No dia 1 de janeiro, enquanto o atual surto se alastrava, China e Cuba inauguraram o Centro de Inovação em Biotecnologia Conjunto Chia-Cuba, localizado na região de Hunan. Essa colaboração se estende por mais de duas décadas, quando os países se juntaram para criar a Changchun Heber Tecnologias Biológicas Ltda em 2003.

A empresa fabrica a Interferon alpha 2B (IFNrec), um dos medicamentos cruciais no tratamento da covid-19. O remédio foi originalmente desenvolvido em 1981 para combater a dengue em Cuba, mas desde então tem sido usada contra a HIV, hepatites B e C e outras doenças respiratórias. O medicamente é utilizado com frequência, ao lado da medicina tradicional chinesa, no tratamento do coronavírus.

A luta cubana contra a covid-19 tem sido exemplar, apesar do bloqueio norte-americano. A China enviou doações importantes à ilha, incluindo trajes hospitalares, máscaras cirúrgicas e termômetros infravermelhos. Muita dessa ajuda veio diretamente do governo chinês, mas parte dela também veio do setor privado.

Solidariedade socialista

Pessoas como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro pensam pequeno quando ignoram suas próprias incompetências em lidar com a doença e, ao invés disso, ficam apontando os dedos e acusando outros.

Trump já transformou em um hábito culpar a China pelo vírus e o filho de Bolsonaro compartilhou uma postagem ddo presidente estadunidense culpando o Partido Comunista Chinês pelo vírus. Esses governos estão encontrando refúgio em outro vírus pertubador – a xenofobia (particularmente contra chineses).

Ao contrário disso, como outros países socialistas, China e Cuba aderiram ao slogan da OMS, “solidariedade sim, estigma não.”

Deng Boging, o vice presidente da Agência de Desenvolvimento e Cooperação Internacional da China disse que “a bondade de pingos de água deve ser retribuída com uma fonte jorrante.”

O que ele quis dizer é que a resposta da China aos outros países não será medida pelo o que esses países fizeram para a China, mas sim pelo que esses países precisam; esse é o velho ideal marxista, de dar o que você pode e pegar o que você precisa. A China segue “o princípio de fazer o possível e tentar seu melhor,” disse Deng Boging.

*Vijay Prashad é historiador, jornalista e diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Paulo Melo

Paulo Melo

Paulo Melo é Jornalista, formado em Gestão Pública pela UCDB e em Gestão Empresarial e Controladoria na UNIPLAN, já cursou Ciência Política na UDF. Especialista em Marketing, editor chefe do portal Cidades & Condomínios, ex-coordenador geral do Movimento dos Comunicadores do Brasil - MCB e ex-presidente da Federação Nacional dos Comunicadores no Distrito Federal - FENACOM/DF.

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